O mito de Áries
O que esse mito nos conta não é apenas sobre Jasão. Nos conta sobre Áries.
Liz Greene diz que Áries é o arquétipo do herói que nasce antes de saber quem é. Jasão não parte apenas porque é corajoso. Parte porque não consegue ficar.
Áries é o momento em que algo em nós diz “sim” antes que a mente consiga formular a pergunta. É o impulso que antecede a identidade. O desejo que vem antes da história.
Jasão não queria o Velo de Ouro.
Queria o movimento.
Queria a travessia.
Queria o começo.
O problema é que o fogo não sabe permanecer. Ele sabe acender. Queimar. Consumir. Mas não sabe, sozinho, cuidar das cinzas que deixa para trás.
Medéia, nesse mito, é a sombra de Áries: aquilo que foi usado como força, mas não reconhecido como parte da própria alma. A paixão, a magia, a intensidade, a entrega — tudo o que possibilita a vitória, mas que depois é descartado porque atrapalha a próxima conquista.
Áries quer partir.
Mas raramente sabe voltar.
E quando volta, já está inquieto outra vez.
O herói ariano é aquele que inicia ciclos, mas não necessariamente os sustenta. Ele abre portas que nem sempre sabe habitar. Conquista territórios, mas não fica para governar. Ama intensamente, mas teme a permanência.
Porque permanecer exige algo que Áries ainda não aprendeu: suportar a própria chama sem precisar incendiá-la em algo externo.
Áries é sempre o signo da partida. Onde você tem esse signo na mandala astrológica revela algo que ali se inicia.
É o momento em que a vida começa a se mover. O primeiro passo fora do útero. O grito inaugural da existência. O “eu vou” dito antes de qualquer plano.
Todo mapa com Áries forte carrega dentro de si um Jasão.
A pergunta não é se ele partirá. A pergunta é: para onde — e a que custo?
Primeiro vem o desejo.
Depois vem a aventura.
E só muito mais tarde, se vier, vem a consciência.
Porque Áries é isso: o fogo que acende a história. Afinal, ele é o primeiro signo da roda zodiacal.
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Aprofundando ainda mais...
Há dois eixos arquetípicos centrais no mito de Áries:
1 - O motivo edípico / “matar o pai” (destronar o velho rei)
Pélias é o pai simbólico.
O velho que ocupa o lugar que deveria ser do herói.
O poder estabelecido, ilegítimo, mas vigente.
Jasão só existe como herói porque há alguém a ser destronado.
Sem Pélias, não há jornada.
Sem pai, não há eu.
Isso é profundamente ariano:
Áries nasce num mundo que já está ocupado.
E a primeira experiência do eu é: “a afirmação do espírito individual”.
O herói ariano não quer destruir o pai por ódio.
Quer destruí-lo por necessidade de existir.
“Matar o pai”, simbolicamente, é romper com a autoridade herdada, desafiar o modelo anterior, interromper a continuidade automática da linhagem, inaugurar algo que ainda não tem forma.
E isso tudo é Áries!
2 - A busca da identidade (quem sou eu?)
Esse é o ponto mais bonito e mais esquecido.
Jasão não sabe quem é.
Ele é “o herdeiro”, “o sobrinho”, “o que deveria ser rei”.
Tudo nele é definido por outros.
A jornada não é para buscar o Velo.
É para buscar um eu que ainda não existe.
Isso é Áries puro: o signo da identidade antes da identidade.
Áries não diz: “eu sou”.
Áries diz: “eu vou”.
E só depois descobre quem é no caminho.
Por isso Áries é o arquétipo do adolescente eterno, do iniciador, do pioneiro, do primeiro gesto. Ele não tem essência pronta — ele constrói a própria essência na ação.
Não é um signo que se conhece por introspecção.
É um signo que se conhece por impacto.
“Quem sou eu?”
Só dá pra responder depois da colisão.
***
E ai, arianos, se identificaram?

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