Que lugar é esse onde você acabou de entrar?

Puxa uma cadeira e senta aqui do meu lado, porque eu tenho uma confidência cósmica a te fazer.

Eu virei astróloga depois de um pesadelo.

Daqueles horríveis. Do tipo: o monstro escala a parede do seu prédio e entra pela única janela que você deixou aberta antes de dormir. Ele te tira para dançar no meio da madrugada e te roda sobre seu tapete limpo e aveludado. Você não sabe muito bem por que aceitou aquilo. Por que está assustada e, ao mesmo tempo, dançando com quem te assusta?

Foi assim. Desse jeito que eu descobri a Górgona. Sim, o meu monstro era uma mulher. Um ser entre réptil e mulher. Algo de olhar assustadoramente cruel. Enviada por Hades — Plutão, o deus do submundo — ela havia entrado no meu apartamento no meio da madrugada, pela janela da varanda, para me lembrar que eu tinha um encontro marcado com ele: o Destino. Ou melhor, com as consequências das minhas próprias decisões. Essas que nos chegam ainda em vida.

Não era um sonho que pedia sentido. Era um sonho que pedia passagem.

E foi depois de revisitar o mito da Medusa e de Perseu mil vezes que descobri: eu tinha sonhado com a morte. E a morte não me mataria, já que, como vocês podem comprovar, estou vivinha da silva.

Havia então um motivo maior para aquele sonho. Ah, havia.

E foi em busca do significado daquela visita horripilante — e de tudo que veio depois dela (o fim do meu casamento, dívidas financeiras, três mudanças de casa em menos de um ano e o retorno à minha cidade natal) — que compreendi: eu estava passando por um trânsito astrológico de Plutão. O senhor das trevas chegava na minha vida no seu coche puxado por cavalos negros, e não restava mais nada além de eu mesma, sozinha, diante de muitas e muitas escolhas mal feitas ao longo dos anos.

A Medusa havia me matado, sim, a mando dele, Hades. Mas aquela que veio anunciar a minha morte seria também aquela que me transformaria. Revelaria alguém desconhecida para mim mesma, mas que sempre esteve ali. Escondida no meu mapa natal.

“É inevitável o encontro com esse senhor, Plutão”, ouvi uma astróloga dizer na TV.

E eu fui atrás.
E fui atrás.
E fui atrás.

Até que, um dia, um pouco antes de dormir, já sonolenta de tanto ler mitos no sofá da sala, eu o vi. Sentado do meu lado. Fazia com o dedo longo e cheio de pelos um círculo com um ponto no meio.

Ele não falou comigo em palavras.
Fez um desenho.

Era a mandala astrológica.

O meu mapa natal.

Eu precisava entender aquele círculo. Entender por que aquilo tudo
estava acontecendo comigo.

Levei um susto quando a primeira astróloga que consultei me enviou um áudio dizendo:
“Menina, você viu quem está colado ao lado do seu Sol no seu mapa natal?”

Plutão. O senhor dos infernos.


Muito prazer, meu nome é Fernanda Elisa. Eu nasci com o Sol conjunto a Plutão em Escorpião na casa 8. Sou astróloga — e aqui estão as runas da minha jornada.


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